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Um festival de cinema mostra o mal-estar na Europa – 02/05/2025 – Mario Sergio Conti

Lá se vão 20 anos desde que George Steiner, o ensaísta franco-americano, disse que a Europa “é o lugar onde o jardim de Goethe quase faz fronteira com Buchenwald, a casa de Corneille dá para o mercado onde Joana d’Arc foi medonhamente executada”.

A Europa, crê-se, é o berço da civilização. Mas de qual vertente, a da filosofia grega ou a da Inquisição? Do Iluminismo ou dos fornos crematórios? Os “30 anos gloriosos”, logo depois da razão europeia e o Exército Vermelho abaterem os nazis, deram lugar à intolerância, ao medo.

O Festival de Cinema Europeu Imovision exibiu há dias 14 filmes, de seis países, em 75 salas brasileiras. Ainda que não elucidem a crise no continente onde nasceu o capitalismo, fica evidente que ela tem um duplo motor: a xenofobia anti-imigrantes e a deterioração do trabalho. Eis quatro dos filmes do Festival Europeu.

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“Brincando com Fogo” tem como personagem central o ferroviário Pierre Hohenberg, um interiorano viúvo que cria sozinho dois filhos adolescentes. O mais velho é craque no futebol e fará um curso técnico para ser metalúrgico. O outro entra na Sorbonne e vai estudar em Paris.

O destino dos três está traçado. O primogênito está fadado a ficar na província onde seus ancestrais criaram raízes territoriais e de classe: será operário. O caçula terá acesso a um meio cosmopolita e intelectualizado, poderá subir na vida. O pai cumprirá sua missão familiar e se aposentará.

Os três se dão bem, mas o mal-estar da sociedade malparada os dilacera. O futuro metalúrgico adere a um bando de extrema direita e adota seu ressentimento: xenofobia, culto ao corpo, brutalidade, racismo, pau nos imigrantes, que querem empregos e profanam os costumes franceses.

Muito da complexidade de “Brincando com Fogo” advém do talento de Vincent Lindon, premiado no último Festival de Veneza pela interpretação do patriarca. Ele é hoje um dos atores mais admirados na Europa.

Seu personagem é um sindicalista fiel aos valores republicanos, que, todavia, o levam a hostilizar a carne da sua carne, o sangue de seu sangue: o filho fascista. Lindon mostra com gestos mínimos que o ferroviário está perplexo e perdido como os filhos –e não só por ser de outra geração.

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“O Último Moicano” é uma raridade, um filme corso. Não tem nada a ver com o romance de James Fenimore Cooper, mas o título faz sentido: Joseph Cardelli é o último pastor de cabras no litoral do sul da Córsega. Como não pode afrontar o avassalador avanço dos empreendimentos turísticos, impulsionados pela máfia local, está condenado à extinção.

Pobre, isolado, sem contatos nem meios para encarar os vilões, o pastor não tem presente nem futuro. Contudo, resiste na louca a pistoleiros e policiais, ao banditismo modernizador, ao progresso tal como é. Não quer emigrar da Córsega que o formou, por broncos que sejam ele e os corsos raiz.

Apega-se ao chão, ao casebre onde cresceu, às cabras e à vida arcaica que tem muito de tribal, mas cuja alicerce é a solidariedade. Por isso, é adotado pelos pés-rapados, vira emblema do que Paulo Emílio Salles Gomes chamou, noutro contexto, de “dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro”.

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“A Luz” começa com uma cena que usa o fetiche dos cineastas novidadeiros: o drone. A engenhoca vê Berlim de cima, entra pela janela do apartamento de uma família de classe média. Ela é um florilégio do progressismo: apreço pelos africanos e minorias, pelo rebeldia de butique, pela estridência do tecno som bate-estacas e por games VR.

O filme foi dirigido pelo alemão Tom Tykwer. Ele ficou conhecido por “Corra, Lola, Corra”, um filme esperto e —percebe-se 27 anos depois da sua estreia— vazio. Agora, não é preciso esperar tanto para se dar conta que “A Luz” é só oco, apesar de durar quase três horas.

Quando pais e filhos teutônicos falam, brigam. Mas eis que surge a imigrante síria, a mescla de maga e faxineira com uma lâmpada mágica mais incrementada que um drone. No tempo em que os filmes tinham mensagem, a de “A Luz” seria que as imigrantes são místicas, e não bruxas.

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“Monsieur Aznavour” conta a vida do cantor e compositor que media 1,64 metro, era chamado de anão, tinha voz anasalada e um nariz que o precedia em dez minutos. Como se não bastasse, era filho de refugiados armênios. É uma prova que os imigrantes, desde que suem sangue, podem se tornar europeus modelares como Shahnur Vaghinak Aznavourian, o nome de pia batismal de Charles Aznavour.


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